segunda-feira, 14 de novembro de 2016

CONSUMIDORES INCONSCIENTES...







Emerval adorava filmes e seriados de ficção.
Entre seus favoritos estavam os relacionados a zumbis.
Sua devoção era tanta que não parava de pensar em zumbis, chegando até a acreditar que eles existiam.
Em seu emprego no SPC (Serviço de Proteção ao Crédito), passou a analisar seus colegas de trabalho e principalmente os cidadãos que o procuravam para reclamar de seus direitos.
A cada tipo de pessoa e caso apresentado, Emerval passou a fazer um lista,, com um campo próprio, para assinalar quem ele acreditava ser um zumbi.
Temendo ser flagrado e ser demitido, ao invés de colocar “zumbi” colocou a palavra “inconsciente”.
E assim, Emerval foi realizando seus atendimentos:
“- Senhor, é um absurdo! Comprei três freezers e nenhum deles congela!” – Dizia um.
E lá ia Emerval pensando com seus botões..”hum... três freezers.. vai congelar gente, certeza! É zumbi!” e lançava o dado em “inconsciente”.
“-Estou há dois meses tentando pagar minhas contas da tv a cabo mas eles dizem que já está pago!” – dizia outro.
Emerval logo concluía... “humm, quer pagar conta já paga... ainda mais no Brasil... é zumbi!” e mais um na lista dos “inconscientes”.
E assim foi.
Um dia, o supervisor geral chegou de supetão para uma inspeção supresa!
Fuça aqui! Abre gaveta lá! Até que chegou na mesa de Emerval.
“Senhor Emerval, o que se trata essa lista aqui?” – apontando para a famosa lista.
Emerval, tremendo como uma Toyota Bandeirante, olhou a todos a volta e mandou:
“Pensei em fazer uma estatística, senhor. Acho importante sabermos também como anda o estilo do consumidor no país. Afinal, falam que o povo só tem direitos e achei importante colocar se eles são conscientes ou inconscIentes quando realizam suas compras!”
E assim, Emerval foi parabenizado e promovido à chefia local!
Logo que assumiu, assinatura de posse, discurso, etc, Emerval já foi demitindo a Amanda, o Esteves e o Marcelo! 
Afinal, pensou, “esses zumbis do caramba é que não vão ficar aqui!”


quarta-feira, 2 de novembro de 2016

PRESO PARA FUGIR DA MULHER...







Sandoval e Clarice já estavam casados há vinte e dois anos.
O cara tinha lá seus defeitos e tal mas era o que a juventude de hoje costuma chamar de “um cara do bem”.
Tinha seu trabalho diário em uma loja de artigos para ioga e meditação.
Clarice, uma militante partidária dessas que usam a mesma camiseta por quatro dias, era funcionária pública e gostava de discutir política com todo ser que respirasse, mexesse ou se arrastasse, além de criar fakes no facebook para criticar a oposição...
O casamento, que antigamente tinha lá seus encantos, agora andava agitado e alegre como um vendedor de guarda-chuvas no agreste nordestino e firme como um prego na areia.
Sandoval, então, com seu espírito zen, resolveu discutir a relação e encerrar o que considerava um karma.
Clarice ficou indignada e possessa! Entendeu o pedido de divórcio como uma armação política de Sandoval para desestruturar seu equilíbrio mental e assim a afastar de seus correligionários e favorecer os detentores do poder!
- “Você jamais vai se livrar de mim! Conheço essa jogadinha, Sandô! Vocês não terão o que querem e vão ter que me engolir! Nunca antes na estória dessa mulher aqui alguém conseguiu me derrubar!”- esbravejava com punhos cerrados a revolucionária Clarice!
Sandoval, no início, atribuiu a maluquice como reação normal de uma separação e possível surto nervoso da esposa.
Mas os dias foram passando e Sandoval não tinha mais paz!
A toda hora, em todo lugar, de tudo quanto quer jeito, lá estava Clarice infernizando sua vida com gritos, palavras de ordem, faixas, cartolinas, tinta guache no corpo, chegando inclusive a ocupar o local de trabalho do marido!
Sandoval até tentou se hospedar em hotel, alojar-se na casa de amigos, esconder-se debaixo de viadutos, mas não tinha saída: Clarice surgia sempre e, cada vez, estava acompanhada por um número sempre maior de outras esposas militantes que se revezavam na perseguição de seus maridos.
Já sem saber o que fazer, ouvindo Clarice a invocar O Capital para dizer que o marido lhe devia um mais valia de atenção, deitado no banco de uma praça e tendo um jornal como cobertor, eis que Sandoval viu uma matéria que informava que um assaltante de banco havia sido condenado a dez anos de cadeia.
“- Hummm”...
Sandoval deu seus pulos e, após uns contatos, praticou um assalto a banco e ficou a esperar a polícia em plena avenida central da cidade.
Assim, após quase um mês de Clarice na cola, Sandô conseguiu finalmente resgatar sua paz interior e atingir - com um sorriso enorme no rosto - o Nirvana, sendo condenado a vinte anos de prisão.
Vinte anos? Mas não deveriam ser dez?

Sim, mas ao entrar no banco e anunciar o assalto, Sandoval logo se viu cercado de Clarice e uma dúzia de militantes, e a Justiça entendeu aqullo como formação de quadrilha e mandou todos em cana, com a pena aumentada...

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

PRESO DO (NO) LIXO...






Aquele presídio era conhecido por ser totalmente à prova de fugas.

Em mais de dez anos nunca um preso conseguiu escapar por suas muralhas.

E olha que já tinham tentado de tudo: rebelião com reféns, escavação de túnel, suborno de guardas, trocar roupas com visitante para fingir ser a pessoa, e até invocar entidade que diziam conseguir sumir e sair do outro lado do muro, após consumir quatro garrafas de pinga e matar duas corujas num prato com foto de um famoso cantor de pagode, fizeram...

Um dia, em meio a tantas atividades que tinha para realizar na penitenciária... tá, tá... já que não tinha nada mesmo para fazer, Zé Cegonha maquinava algo para sair logo da prisão.

Condenado a mais de oito anos por tráfico de drogas e assalto, dizia que não ficaria ali muito tempo e passava 24 horas pensando em algo para deixar sua cela 02, pavilhão 3, raia 7.

Toda vez que pensava em algo logo lhe vinha a lembrança de alguém que tentara o mesmo antes e tinha se dado mal.

Foi ficando desanimado e até soltou um “eu sou um lixo mesmo”...

Ãh? “Lixo?”- pensou. “Taí!!!”

Zé Cego – como alguns o chamavam – lembrou que nesse mundo se tem algo que o poder público e a sociedade não liga é para o lixo.

Reparou que o que sobrava da bóia (comida), sujeira, roupa velha etc, era tudo colocado em tambores, os quais eram recolhidos toda semana.

Começou a observar a rotina e viu que alguns tambores eram levados pelos ”correrias” (presos que trabalham ajudando os carcereiros) até uma lateral da cozinha.

Toda sexta-feira, um caminhão entrava no presídio e recolhia os tambores.

Zé então arrumou e escondeu alguns panos velhos sob a roupa e na sexta-feira, pela manhã, durante o banho de sol, fingiu fazer sua caminhada normalmente até chegar ao lado dos tambores.

Viu que havia um tambor com lixo só pela metade. Foi aquele mesmo!

Entrou e jogou sobre sua cabeça e corpo as roupas velhas que trouxera consigo.

Como toda semana, o caminhão chegou e recolheu todos os tambores e partiu, deixando o presídio.

Zé já sentia o cheiro da liberd... bem, por ora não era bem o cheiro da liberdade que tomava conta da carga.

Após algumas horas, o caminhão estacionou.

Zé estava apreensivo, já pensando no lixão, urubus e pilhas de objetos a serem enfrentados para poder enfim sumir nesse mundão.

Escuta algumas vozes, um barulho de engrenagens e seu tambor começa a sacudir.


De repente, curioso com a movimentação toda, põe a cabeça pra fora.
Lá estava Zé Cego, içado bem alto por um guindaste, prestes a ser lançado numa máquina de triturar lixo.

Desesperou:

- “PÁRA! PÁRA! SOCORRO! TEM GENTE AQUI! PÁRA! ME TIREM DAQUI!!”

Conclusão...


Zé Cegonha voltou para o presídio, perdeu o tempo que tinha cumprido para progredir de regime ante a prática de falta grave, e passou a odiar o meio ambiente, as usinas de reciclagem, a sociedade e o maldito governo, sempre ele.

domingo, 16 de outubro de 2016

VESTIR-SE DE PALHAÇO PODE DAR CADEIA...





O país tinha a fama de ser um ambiente de muita brincadeira e pouca seriedade.

Um grupo de estudiosos Phd em sabe-se lá o quê, a pedido do Congresso Nacional, providenciou um estudo para tentar alterar essa fama, a qual creditavam o atraso cultural, político, econômico e ético da nação.

Os doutores concluíram que realmente o cidadão precisava ser mais sério e a postura de tirar sarro em tudo, mesmo havendo tanto crime, corrupção, mortes, falta de hospitais, decadência do ensino, violência no trânsito, só contribuÍa para aumentar ou no mínimo manter o precário cenário apresentado.

Com os estudos em mãos, os nobres deputados e senadores daquele país resolveram, então, por lei, proibir seus cidadãos de fazerem piadas, brincadeiras, zoeiras, sarro e todo tipo de menosprezo com uma situação ou pessoa, devendo sempre haver de se empreendida a seriedade.

Ao ser publicada a seríssima lei, parte do povo fechou semblante e disse que a lei deveria ser obedecida, para o bem do país.

Outra parte, roupa de palhaço adotada como símbolo e placas de piadas e trocadilhos nas mãos, saiu às ruas para protestar contra aquela lei que diziam ser um golpe!

A polícia agiu e lançou gás lacrimogênio pra todo lado!

Prisão prá cá e prá lá!

Palhaços se acorrentaram uns aos outros para impedir o trânsito na mais movimentada avenida do país!

No Congresso cidadãos apalhaçados tentavam invadir as repartições!

Até um deputado – realmente palhaço – foi preso acusado de infringir a lei!

A nação estava em polvorosa e o medo tomava conta.

Os apoiadores da lei, ao verem ruas, praças, bares e diversos lugares vazios, diziam que já era um sinal de que “agora sim este país tá virando um lugar sério!”

Um dia, um animador de festa caminhava para a casa de uma criança aniversariante, roupa de palhaço no corpo, quando foi abordado pelos homens da lei:

“- Oh rapaz! Teje preso!! Mãos na cabeça! Não quero nenhuma gracinha, hein!”

O caso gerou discussão intensa na cidade, pois o menino que ficou sem a animação era filho de um vereador.

O delegado da área chegou a informar que qualquer pessoa vestida de palhaço, em razão da lei, poderia ser presa.

Alguns estudantes armaram um circo em frente ao Fórum.

A imprensa nacional inflamou o caso e no país todo manifestações surgiram e se multiplicaram.

O slogans mais vistos eram “Não é apenas por uma roupa de palhaço!”, “Sou dona de minha própria fantasia!”, “Não vai ter golpe contra o humor!”, “Fora Terror!”, “Eu apoio o juiz Sérgio Malandro!” e assim por diante.

Ante tanta pressão, quebra-quebra, desgastes e mal estar internacional, revogaram a lei.

E o país voltou a ser o que era, com seus cidadãos a enfrentarem filas para postos de saúde, busca por vagas em creches, senha para atendimento jurídico no fórum, etc, mas tranquilos por poderem voltar a fazer suas piadas, zoeiras, trocadilhos, pegadinhas...


Pois é... mas volta e meia, até hoje, alguém solta: “no tempo da lei contra humor que era bom! Não se via essa bagunça de hoje! Comediante palhaço era fuzilado ou exilado! Ninguém ouvia falar em corrupção, assalto, vagabundice e blá blá blá...”


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

GARI SENDO ASSALTADA...





Carolina não aguentava mais ser assaltada.

Trabalhou como balconista em uma conveniência e foi assaltada quatro vezes.

Passou a trabalhar como caixa de uma farmácia e lá se foram seis assaltos.

Resolveu entrar no ramo de venda de produtos de beleza como consultora, levando sua sacolinha de produtos e batendo de porta em porta e... sim.. mais oito assaltos!

Sem produtos e tendo que pagar a empresa (que por ser Suíça e não acreditar nos relatos de sua funcionária sobre tantos assaltos cobrou o valor das últimas mercadorias levadas), Carolina decidiu fazer salgados e vender nos pontos de ônibus.

Pois é, foram diversos assaltos, com dinheiro e coxinhas sendo levadas em variados horários do dia ou da noite.

Tanto assalto e necessidade, Carolina pensou: “nesse mundo cão, vou tentar algum emprego que não precise levar nada e não ande com nada de valor pra chamar atenção!”

Estava então sentada na praça, vendo o movimento, pensando o que poderia fazer e reparou um gari varrendo o meio fio, suor no rosto, força no arrastar do carrinho, mas a cantarolar um velho samba, demonstrando alguma felicidade...

Taí!”- pensou Carol.

E após alguns dias, lá estava Carolina empregada, varrendo a via pública, um pouco de cansaço pelo puxado do serviço, sol a navalhar sua face, mas feliz por estar quase a terminar uma semana sem um safado a pedir sua bolsa, tomar seu dinheiro, levar seus pertences e....

“ - ASSALTO DONA!! VAI PASSANDO O CELULAR!!” – esbraveja um rapaz bem vestido, cara de bebedor de fanta uva, mas que fazia dois dias tinha saído da cadeia em liberdade condicional

Carolina, sem acreditar, entregou seu celular, único bem que carregava.


Hoje não se tem mais notícias de Carolina... mas dizem que alguém ouviu comentários de que ela teria se tornado monitora em uma praia de nudismo.